No Trem da Morte, que ia de Santa Cruz de La Sierra a Porto Quijarro,
ninguém esperava que o último dia de um roteiro de 20 dias por Bolívia, Chile, Peru
seria esticado por novos lugares, pessoas e risadas; até um senhor entrar no
vagão e anunciar com um "portunhol": "A partir daqui, o trilho está
inundado pelas águas do pantanal boliviano". Faltavam menos de 30 km
para chegarmos ao nosso destino!
Sem opção, ficamos naquela estação, onde o único sinal de civilização
era uma tenda. Lá, espantamos o calor úmido com cervejas geladas (sim, GELADAS), enquanto
observávamos outros passageiros espremerem-se em transportes improvisados para
atravessar os três lagos formados pelas chuvas. Até a
lua despontar, pensávamos que eles eram loucos. Depois, quando a noite
chegou e os anunciados ônibus não, notamos o engano: loucos éramos nós!
O jeito foi nos juntar aos que tinham ficado e caminhar para uma estrada de terra, mortos de fome, delirando por um
transporte, qualquer que fosse. De repente, um alvoroço: um caminhão! Com um pouco de conversa e bolivianos (moeda local), abriram a carroceria
para a cambada abandonada subir. Foi um empurra-empurra de gente e malas
arremessadas até todos se acomodarem em pé. Para comemorar, o pisco -
recordação da viagem - virou brinde. E, sob uma lua cheia,
atravessamos os pontos alagados, com um sorriso grudado no rosto de terra.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Indigestão
Triste, com medo, azia. Distantes. Ele se esforça, até me busca na rodoviária quando faz frio, mas, sei: pegou bode. Na volta pra casa, eu, mascando chiclete; nós atordoados com o vento gelado de fora; ele, de vidro escancarado para não escutar o barulho. “Qual barulho?” “Seu, de chicletes!” “Hã?” Murchei. Ele também. Me deu um selinho, seco; fui dormir, ele ficou. O sono não veio. Veio angústia, quase dor. Quando se deitou, me enrolei nele, mas já dormia, fingia. Acordou com nova senha de e-mail, atendendo aos meus pedidos que nunca desejei realizados. Ligo, ele me atende; nós... distantes. Semana passada, quis, eu quis mudar de prato, de casa, de vida. Nesta, esperava fartar-me de feijão com arroz. Tarde? Ele se vai tarde?
Placebo
Uma hora a gente tem coragem, rompe a zona de conforto, e acaba se encontrando. Só acreditando nisso para superar, mesmo que momentaneamente, o pânico de não saber para onde ir.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
sexta-feira, 26 de março de 2010
Crônica clichê
Semana do cão, dia humilhante. Escutando merda o dia inteiro, recebendo setas envenenadas, envenenando-me de inveja. Na volta, a chuva, o trânsito. Não liguei, juro! Pelo menos não na primeira hora, enquanto permanecíamos – eu, motorista e fotógrafo - estáticos dentro da van, assistindo a um concerto de buzinas. Tapei os ouvidos com Karnac e assim passei as demais duas horas - e 13 km, acreditem! - que nos separavam do destino. Cheguei com a bexiga estourando. Um pouco mais e descia ali mesmo para um exibicionismo escatológico. Tudo bem. Respire pelo nariz, Adriana, conte até três e solte o ar pela boca. Ufa! Veja pelo lado bom: pelo menos, não apresentava os sinais típicos de um paulistano estressado, como a dor de cabeça, o enjoo e, principalmente, a chatice que acometiam meu colega de trabalho desde o dia anterior. Eu, pelo contrário, levava adiante a meta de me tornar uma pessoa ponderada, o que, resumidamente, significava engolir sapos sem perder a pose. Segui comportando-me como uma lady, enquanto, por dentro, dinamites explodiam. Mas, só por dentro. Com o semblante de calma - muito invejado numa situação destas -, encarei o metrô. Decisão estúpida, ok. Na estação amarrotada, a luz branca deixava ainda mais evidente a nossa condição de cagados. Foram uns 20 minutos sacando tudo quanto era gente até chegar a minha vez de me espremer naquele troço. Vai tomar no cu, seu Kassab! Que ódio deste fdp! Fica lá, gastando meu dinheiro com a Marginal, à toa. É rio, entende? Escoa, transborda e logo logo vai engolir suas obras, amém! Mas você deve passar imune às enchentes, enquanto penteia o topete no banco de passageiro do seu Tucson. Sim, porque é dever de todo cidadão médio-classista ter um Tucson. Uns segundos e o estouro repentino foi asfixiado pelo sovaco de um tio que insistia em contradizer a lei da física: dois corpos NÃO ocupam o mesmo espaço, no mesmo tempo. Vamos contar: um... dois... Contar é o caralho! Chega! Foi a gota d'água. Abri o berreiro ali mesmo, dei de louca, bufei toda a pimenta. Uma recaída. Humpt! Respire pelo nariz, conte até três e solte o ar pela boca. Nada de desistir. Se não chover, amanhã consigo ser fina
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
diário
São milhares de pedaços perdidos
Peças partidas de um quebra-cabeça encardido
Frases paridas em tempos de nenhum pudor
Em dias de dúvidas e muito sol
São milhares de encontros
De enganos e ilusões
São dívidas esquecidas
Segredos apagados pelos anos
Encontro-o num criado mudo
Com cor e cheiro de esperança
Vermelho como a revolução
Repleto de sonhos de amor
Em uma enorme bolha de idéias
Passam pessoas em ruas tranquilas
Festas barulhentas
Inconsciência
Dinheiro regrado e saúde abalada
Descompromisso e credulidade
Semanas de sábado eterno
Solidão de velhos
nenhuma logística para o sofrer
Rio de mim mesma
Quero chorar
Correr até lá para dizer adeus a todos
E me trazer de volta
Zerar os ânimos
Começar tudo outra vez
Peças partidas de um quebra-cabeça encardido
Frases paridas em tempos de nenhum pudor
Em dias de dúvidas e muito sol
São milhares de encontros
De enganos e ilusões
São dívidas esquecidas
Segredos apagados pelos anos
Encontro-o num criado mudo
Com cor e cheiro de esperança
Vermelho como a revolução
Repleto de sonhos de amor
Em uma enorme bolha de idéias
Passam pessoas em ruas tranquilas
Festas barulhentas
Inconsciência
Dinheiro regrado e saúde abalada
Descompromisso e credulidade
Semanas de sábado eterno
Solidão de velhos
nenhuma logística para o sofrer
Rio de mim mesma
Quero chorar
Correr até lá para dizer adeus a todos
E me trazer de volta
Zerar os ânimos
Começar tudo outra vez
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Torrinha

Ilusionismo de Carnaval. Lembro bem do que senti naquela noite, que repetia outra de tantos anos, quando, pequena, me enroscava em serpentinas. Entre uma coisa e outra, o TEMPO pareceu suspenso, dando trégua aos foliões mascarados, que se entregavam, extasiados, ao desfile dos blocos com seus bonecões gigantes. Mas, no dia seguinte, quando acordei, de ressaca, com a idade de hoje, encontrei a cidade de sempre, ostentando, orgulhosa, o passar do TEMPO em casas de tintas descascadas.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Insônia
Quando o silêncio do sono alheio reverbera meus pensamentos, vixe, eu me deparo com a VIDA, assim mesmo, em caixa alta, pavorosa. Tão nítida, tão evidente e eu ali, salva da queda por um fio dental. Medo, caralho, q medo!
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